Porque nos lesionamos?

Patrícia Rosado

14 Janeiro 2019

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Porque nos lesionamos?

Porque nos lesionamos?

Na vida de um atleta conviver com lesões ou pequenas dores que vão surgindo, sem aparente motivo, acaba por ser quase normal. Muitas lesões ou dores vamos conseguindo lidar autonomamente e acabam por se solucionar. Outras necessitam de paragens, de ajuda de profissionais habilitados e tratamentos adequados.

Acabamos sempre por cair na mesma questão. Porque me lesionei?

 

Normalmente não é fácil encontrar essa explicação. Tendemos a explorar se foi do aumento de carga, da sobrecarga de treino, do calçado novo ou usado, do piso irregular. Contudo, lá atrás já fizemos essa mesma carga, já corremos nesse mesmo piso, já usamos aqueles ténis novos sem provocar qualquer lesão. O que mudou?

 

Quando estamos a correr estamos a produzir uma ação que implica energia, uma energia contra o terreno no qual estamos a treinar. Essa energia que aplicamos irá se refletir sobre nós. O nosso corpo absorve a mesma e emite uma resposta. Este é o processo físico de correr. Nesta ação continua, se formos bem sucedidos, a resposta é positiva, e obtemos ganhos físicos com o treino sem risco de lesão. Contudo, se o nosso organismo deixar de ser eficiente e baixar a sua capacidade física, deixamos de responder positivamente a essa energia e entramos em défice, ou de forma pontual (p.e. contraindo um estiramento muscular num treino de series) ou cronicamente (p.e. tendinopatia do aquiles).

 

Na verdade o nosso organismo é uma máquina muito eficiente e muitas lesões acabam por nos passar despercebidas, ou melhor não chegam a ser verdadeiras lesões. Há uma capacidade adaptativa muito grande e, normalmente, quando uma estrutura entra em défice, o organismo defende-se encontrando ou recrutando outras estruturas que possam colmatar a ‘falha’. E assim, vamos nos escapando (sem valorizar a capacidade incrível do nosso corpo) a várias lesões. Significa que fomos capaz de absorver a energia daquele ‘evento desportivo’.

 

Com o passar dos anos, e com as cargas sucessivas que vamos exigindo ao nosso corpo, vamos perdendo algumas qualidades. Após uma paragem é mais difícil retomar, já não conseguimos correr ao ritmo que corríamos outrora, temos menos força ou vitalidade. E, não é só porque estamos mais velhos. Com o passar do tempo e com os processos adaptativos negativos aos quais obrigamos o organismo a adotar provocamos uma baixa de eficiencia que nos deixa cada vez mais em risco. Ainda assim, a capacidade do nosso corpo é extraordinária e ele vai sempre procurar uma forma de gerir a situação. Contudo, isto não pode durar para sempre e é aí que vão aparecendo as lesões.

 

Fazendo a analogia com um jogo de futebol. Temos o nosso organismo com 11 elementos contra a equipa adversária (eventos lesivos). Enquanto estivermos 11 para 11 venceremos sempre. Quando perdemos um jogador, conseguimos vencer na maioria das vezes também. Mas o que vai acontecendo? Com 10 elementos a fadiga vai ser maior, ou seja há uma necessidade do organismo se adaptar, e vai correr mais lentamente. Talvez tenhamos com o passar do tempo outros elementos em risco de lesão e a não conseguir continuar em jogo. O nosso organismo funciona assim também. Se há uma articulação que bloqueou e perdeu a mobilidade necessária para uma corrida eficiente (jogador que saiu de campo), outras articulações vão tentar colmatar o problema (restante equipa). Estas vão entrar em fadiga e em estados de dor mais rapidamente, dando sinais de alarme. E agora? Vou tratar e recuperar apenas os jogadores que estão em campo a acusar dor e fadiga? Ou seria melhor se voltássemos a ser 11 em campo? É aí que entra a complexidade. Precisamos de todos os elementos a funcionar para diminuir o risco de lesões e recidivas. Logicamente trato as estruturas com dor mas é necessário perceber que elementos estão na base de esse desgaste, dessas novas dores e dessa fadiga e recupera-los.

 

A pergunta será sempre: porque falhou o meu sistema? E a resposta nunca é linear. Existem muitos fatores, até extra treino, como a alimentação, hidratação, descanso, stress psicológico e claro, o stress fisico e mecânico do treino que devem ser avaliados por uma equipa multidisciplinar, onde o fisioterapeuta tem um papel de destaque e a responsabilidade de encontrar a raiz do problema e soluciona-lo com as melhores técnicas disponíveis. Fora isso, resta-nos estar atentos, ouvir o nosso corpo, conhecer as nossas fraquezas e aprender a lidar o melhor que podemos com as mesmas, evitando levar o nosso organismo até ao Red Line e a episódios de lesão ou até mesmo de temporadas interrompidas vezes sem conta, com lesões difíceis de perceber e solucionar.

 

Posto isto,

Bons treinos a todos com respeito pelo nosso organismo, que acreditem, é uma máquina muito eficiente.

 

Até já,

Patrícia Rosado