Route 66 - Terceira Parte

Patrícia Rosado

08 Dezembro 2018

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Route 66 – Terceira Parte

Route 66 – Terceira Parte

Esta é a terceira parte do artigo que descreve a nossa viagem pela mítica Route 66. Podes ler a primeira e segunda parte clicando aqui: Primeira Parte e Segunda Parte.

 

Dia 23 de Novembro chegamos a Holbrook e passamos a noite num local icónico e quase obrigatório para quem faz a Route 66: ‘Wigwam Motel’. O Wigwam é um motel em que os quartos simulam as antigas tendas dos índios, foi construído no ano de 1950, nos tempos de glória da Route 66. Por fora parecem pequenos mas, são até bastantes espaçosos. Os quartos são antigos mas acaba por ser uma experiência engraçada, ali não há luxos, nem ecrã LCD, aliás se a TV fosse a preto e branco até achava ter andado uns bons anos para trás. À porta de casa estão estacionados carros antigos de diversas marcas que dão mais magia ao lugar. Foi a nossa noite de Thanksgiving. Tínhamos pensado jantar fora para celebrar, mas o Thanksgiving é como o Natal, estava tudo fechado, às 18h Holbrook parecia uma cidade fantasma. Acabamos por fazer um picnic na nossa tenda. Deitamo-nos cedo porque o dia seguinte seria exaustivo a nível de viagens. Iríamos visitar o Grande Canyon e após sairmos no parque iríamos desviar a Las Vegas, o que acabou por dar 800km ao final do dia.

Wigwam Motel

Antes de chegarmos ao Grande Canyon ainda percorremos a Route 66 até Flagstaff e ficamos com alguma pena de não ficar mais tempo por ali e conviver um pouco com os locais. Flagstaff é uma cidade em altitude – cerca de 2000m, situada no sopé da montanha mais alta do Arizona, pico Humphrey, e com um verde a cobrir toda a paisagem. O centro da cidade é cuidado e organizado e é lá que é a famosa universidade NAU – North Arizona University. Fiquei com muita vontade de voltar, adorava fazer por lá um estágio de corrida. De ressaltar que Flagstaff é um ótimo local para amantes da natureza e de desportos ao ar livre.

Flagstaff

O Grande Canyon não faz propriamente parte da Route 66 mas, passando pelo Arizona e por Flagstaff e estando apenas a 1 hora de caminho é impensável não ir conhecer uma das 7 maravilhas naturais do mundo. Pela sua fama é um local onde qualquer um de nós deposita uma expectativa enorme, embora não saibamos bem aquilo que nos espera, a sua dimensão e na prática como organizar uma visita de um dia.

 

Não tivemos muita sorte com o dia que ‘escolhemos’, pois com o Thanksgiving os americanos fazem mini férias e acabam por encher os locais turísticos. Vínhamos habituados a ter todo o espaço e tempo para nós mas, ali entrámos numa espécie de verão com filas e turistas em todo o lado. Ainda assim, é impossível ficar indiferente a uma tão imponente paisagem e quando pensamos e lemos sobre os processos de formação do canyon e o tempo na história sentimo-nos pequenos em todos os aspetos: somos apenas um grão de areia na história do planeta terra. Observei essencialmente o Canyon dos miradouros mas, os únicos metros que desci foram suficientes para abafar qualquer som e sentir um silêncio imenso. Só aquele vermelho de vários tons a entrar pelos olhos e a dificuldade em absorver e assimilar tudo o que via. Para se explorar o Grand Canyon um dia não chega (nem uma semana), mas ficar alguns dias seria ideal para poder fazer trekkings e até acampar em zonas permitidas. Acredito que isso sim seria ‘do caraças’. Em jeito de brincadeira ainda dissemos ‘um dia com os miúdos’. Quem sabe! Vimos o pôr-do-sol, que transformou o vermelho numa cor azulada e seguimos viagem.

Grand Canyon – Pôr-do-sol

Las Vegas é demasiado. Tudo é em demasia. Até os contrastes são em demasia. Quando achava que Albuquerque já tinha sido uma cidade de contrastes ainda não tinha visto nada. Se por um lado tem as luzes dos casinos, dos hotéis com os seus megalómanos monumentos (que não passam de imitações de monumentos existentes em todo o mundo), os turistas com dinheiro ou os jogadores de casino; por outro lado circulas nas ruas perpendiculares à Strip (avenida principal) e encontras pobreza, miséria, pessoas perdidas há muito delas mesmas e quase sentes medo de estar ali. Las Vegas cresceu num deserto, sem uma identidade até que agora a sua identidade é esta: as ruas fancys, os helicópteros a sobrevoar a toda a hora a cidade, e a procura de universos paralelos e realidades não existentes. Dizem haver um número gigante de pessoas a viver nos esgotos e túneis de Las Vegas, onde vivem na sombra da sociedade, onde as condições para viver simplesmente são inexistentes. Não dá para sequer imaginar.

 

Mas, queríamos passar em Las Vegas (sendo apenas um desvio de 100 milhas), e foi bom tê-lo feito. Tantas vezes pensei: que saudades do meu país, da minha casinha, da minha zona de conforto. Viajar também é isto, principalmente quando já estamos há tantos dias fora de casa. Nem tudo corre como esperamos, nem tudo é o que achamos, nem sempre dormimos em sítios aprazíveis, nem sempre vemos as melhores cenas. Mas para mim isso sim é viajar, encontrar contrastes, pessoas, sempre pessoas. As pessoas fazem os sítios, nada melhor que as observar, procurar falar com elas, perceber como vivem. Tão iguais a nós (na nossa biologia) mas tão diferentes. Estes choques fazem-nos valorizar o que temos e essencialmente o que somos e o que temos construído e escolhido nas nossas vidas. Bom, Las Vegas será um local a não voltar certamente, não há muito que ver em tanto para ver. Tudo nos enche os olhos mas tudo é vazio. Demasiada informação que na verdade, pouco vale. Ficámos exaustos, para além do transito louco (a maior parte das pessoas que estão em Las Vegas a conduzir não são de Las Vegas, o que dificulta a circulação), vínhamos com a cabeça cansada e um tanto ou quanto desanimados. Desejámos voltar rapidamente aos dias calmos na simpática Route 66.

Las Vegas – Strip

Voltámos à Route na cidade de Kingman. Uma pequena cidade com alguns marcos históricos da Route e um motel também temático (Arcádia Motel) mas que não tivemos oportunidade de ficar. Em Kingman almoçamos num Diner da Route ‘Mr. D’z Route 66’, comemos umas omeletes que nos souberam pela vida, já vínhamos a ressacar de tantas sandes de queijo aos almoços (nós fazemos um regime alimentar vegetariano e os únicos produtos que ocasionalmente consumimos de origem animal são ovos e queijo, nesta viagem acabou por ser a nossa salvação). Após Kingman a paisagem voltou novamente a mudar. Depois das retas longas no deserto entramos nas zonas de curvas e contracurvas, várias vezes encontramos o símbolo da Route 66 na estrada, mesmo dos originais pintados em cale branca, com relevo. Aproveitamos para tirar algumas fotografias e disfrutar da paisagem e da estrada deserta.

 

Entrámos na zona das Ghost Towns, rapidamente percebi porquê: cidades quase abandonadas, algumas simplesmente resistem porque a Route existe. Em Cool Springs encontramos uma loja e antiga Gas Station da Route. Um local mítico e igualmente místico. O senhor não era propriamente simpático, mas estava ali, sozinho, na sua loja típica. Uma forma de ajudarmos estes locais (vários não se têm aguentado e estão fechados) foi comprarmos sempre alguma coisa: ou comida ou simplesmente alguma lembrança. Com as autoestradas (que são ótimas e grátis) a maior parte do trânsito não passa nestes locais e com o passar dos anos, e também com o fim de gerações, estes locais fecham definitivamente, o que acreditem, é triste. Esta é a última paragem antes das estradas perigosas de curvas em cotovelo e das Black Montains. Terminámos o dia em Oatman, outra Ghost Town conhecida pelas suas famílias de burros, que circulam pelas ruas da vila. É uma vila bem preservada, pois acaba por ser um ponto turístico não só para os viajantes da Route.

Oatman

No dia seguinte chegámos à Califórnia, o último de 11 estados que percorremos no mês de Novembro. Começamos em Needles e seguimos para o Deserto de Mojave, sempre pela Route 66. As curvas à esquerda e direita tinham acabado e ali as curvas eram outras. A estrada era simplesmente aos altos e baixos: a zona é montanhosa e o alcatrão passou apenas pelos declives ficando aos altos e baixos. As temperaturas começaram a mudar, e o inverno que deixámos cada vez mais para trás, transformava-se agora numa espécie de verão. A Route 66 na Califórnia tornou-se para nós muito nostálgica. Os pontos de interesse e as cidades (as Ghost Towns) estão muito afastadas e muito desérticas, penso que o facto de estarmos num estado que tem costa de mar, torna o interior do estado muito solitário, e claro o facto de ser deserto também não ajuda. Até Victorville seguimos sempre pela Route, a imaginar como seria no verão se, no final de Novembro apanhamos 25 graus.

 

Ao final da manhã bebemos o nosso café americano (do qual ficámos fãs) em Newberry Springs no Bagdad Café, o local que deu o nome ao filme americano de 1988 – Café Bagdad. O local é antigo mas icónico, contudo à espera que algum turista lá pare e dê algum lucro ao local. Descansamos por ali um pouco, com o sol a bater nos vidros cheios de autocolantes e nas paredes cobertas de notas assinadas pelos viajantes e nas bandeiras de todo o mundo já russas pelo sol. Um bebé dormia num carrinho muito antigo, a mãe não estava por ali, e a velhota do café deslizava o dedo pelo facebook enquanto na TV passava o filme que dá a fama ao pequeno café. Seguimos ao fim de uns 30 ou 40 minutos, parece que perdíamos a noção do tempo, nestes locais também eles perdidos no tempo. Terminámos ao pôr-do-sol em Oro Grand, na Bottle Tree Ranch, um local com árvores feitas de garrafas de vidro de várias cores. Um senhor chamado Elmer Long construiu a primeira árvore no ano 2000, e desde aí tem vindo a construir, pelas suas próprias mãos, o Botle Tree Ranch. O sol pôs-se através dos vidros coloridos, e as suas cores ficaram mais intensas, como dizíamos sempre ‘temos tanta sorte com os nossos pores-do-sol ao acaso’.

Tree Bottle Ranch

Nessa noite o plano era ficar em Victorville, uma cidade na nossa rota, mas os alojamentos dentro do nosso plafond estavam esgotados de modo que seguimos nesse mesmo dia para Los Angeles, já que já estávamos apenas a 100km. Entre Victorville e Los Angeles a Route 66 acaba por se dissolver nas periferias desta enorme cidade, e as Ghost Towns dão lugar a zonas residenciais que absorveram quase todos os pontos de interesse da antiga Route 66. No dia seguinte de manhã rumámos a Santa Mónica Pier até ao ponto final da Route 66. Na realidade, a Route 66 não acabava nesta zona na sua fase inicial, mas anos mais tarde mudaram o seu curso para que acabasse junto à praia, na verdade muitos viajantes do interior do país ansiavam o momento em que chegavam a Los Angeles e viam o mar, muitos pela primeira vez. Santa Mónica é sempre um lugar mágico para nós que crescemos a ver a serie ‘Marés Vivas’. Durante muito tempo as imagens dessas praias viveram no meu imaginário, e agora eu estava ali, e estava ali após ter feito mais de 5000 quilómetros de carro. No último quiosque da Route 66 recebemos o nosso diploma certificado após darmos provas de que tínhamos completado toda a route e claro, tirámos a fotografia mítica junto ao verdadeiro sinal (nesse mesmo quiosque) e no sinal turístico. Foi um misto de sentimentos, estávamos felizes por estar ali e ao mesmo tempo tristes por já ter acabado. Foi sem dúvida uma viagem que não esquecerei, que fará parte das minhas histórias de vida para sempre.

Route 66 – End

Beijinhos,

Patrícia