Route 66 - Primeira Parte

Patrícia Rosado

01 Dezembro 2018

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Route 66 – Primeira Parte

Route 66 – Primeira Parte

Estávamos ansiosos por aquele dia: pegar no carro e seguir viagem. Seriam garantidamente mais de 4000 km. Atravessar um país enorme. Sabíamos que as diferenças se iriam notar, mas não sabíamos o quanto. Sabíamos que íamos entrar num mundo diferente, mas não podíamos prever o quanto. Sabíamos apenas que seria a nossa viagem, posso dizer que um sonho concretizado.

 

Estruturamos a viagem à nossa medida, a partir de Chicago não haviam alojamentos reservados, decidimos que íamos andando e reservado (esta altura do ano sem turistas é ideal para uma viagem assim), a uma média de 300-400 km por dia, tentando ao máximo usar a antiga Route 66 – sempre que possível uma vez que há troços que não existem mais. Simplesmente olhávamos o mapa, fazíamos contas rápidas aos quilómetros e decidíamos onde dormir.

 

Para ser menos exaustivo vou dividir a minha experiência em 3 partes. A primeira parte: zona este de Chicago até Oklahoma, segunda parte: zona final de Oklahoma até ao final do Novo México e terceira parte do Arizona até à Califórnia. Não pretendo que os meus artigos sejam interpretados como blogger de viagem, porque não serão. Serão apenas uma partilha das vivências ao longo deste mês, afinal viajar é uma das coisas que mais me apaixona.

 

Primeira parte – De Wilmington até Oklahoma

 

A primeira paragem foi num museu da Route 66 (há vários ao longo da route) e a fotografia típica com um Muffler Man – Gemini Giant (bonecos gigantes de fibra de vidro; existem alguns ao longo da Route). Não me parece que vá esquecer aquele primeiro momento, quando entrei no museu e vi os primeiros ícones da route. As descrições, as imagens, os vídeos a relatar as viagens de tantas pessoas que por ali passaram ao longo de tantos anos.

 

 

Estávamos mesmo ali e isto estava mesmo a acontecer, senti-me tão grata e feliz. Há coisas que achamos que não passam de sonhos até as sentirmos na pele. Tirámos a fotografia com o gigante de fibra de vidro e fomos para Springfield – Ilinóis, onde ficamos a primeira noite (existem vários Springfields na América e nenhum é a terra dos Simpsons). Escolhemos um hotel temático da Route 66, todo decorado à medida.

 

Desde Chicago que vínhamos com temperaturas muito baixas mas, naquela noite os avisos eram de neve na madrugada a rondar os 30cm. Reagimos tal como reagimos em Portugal – desvalorizamos tal notícia: ‘Não iria nevar’. Contudo, bem-vindos à América.

 

 

 

 

Acordamos com um manto branco imenso, a nevar como há muitos anos já não via. A paisagem estava tão bonita. Contudo, naquele momento o nosso pensamento era: ‘estamos lixados’. Tirar o carro do estacionamento e depois conduzi-lo em segurança na neve parecia coisa impossível. Saímos apressadamente de Sprinfield e nem visitamos os pontos recomendados dentro da cidade (relacionados com a história e vida do presidente Lincoln), mas rapidamente percebemos que na América não se brinca. As estradas estavam limpas e tudo decorria na maior das normalidades. Relaxamos e novamente podemos apreciar a beleza daquele manto branco imenso que cobriu o estado de Ilinóis e Missouri.

 

 

No final desse dia vimos o pôr-do-sol numa estação de serviço típica (fechado nesta época) típico da route – Bob’s Gasoline Alley. O sol batia na neve e em todos os elementos decorativos, num sítio deserto, éramos só nós e aquele sítio magico e ‘abandonado’. Foi um dos pores-do-sol mais bonitos que vi. Seguimos viagem, ficamos em Springfild (Missouri) após atravessarmos St Louis e virmos o famoso arco (marco do desenvolvimento da cidade).

 

Em Springfield conseguimos começar a percorrer muito mais a route original (até ali tínhamos percorrido muita autoestrada e íamos saindo nos pontos de interesse que selecionamos). Rapidamente nos apaixonamos pelos sítios históricos, dinners ainda a funcionar, bombas de gasolina já desativadas, lojas de recordações (alguns outrora tinham sido locais de apoio aos viajantes), néons coloridos e motéis antigos mas cheios de classe. Descobrimos que o filme ‘Cars’ foi inspirado numa pequena vila no estado do Kansas: Galena. E lá encontramos os carros originais, uma pérola para os amantes deste filme.

 

 

Rapidamente nos apercebemos que os americanos (nesta zona) são extremamente simpáticos, e não é nada forçado, eles são mesmo assim. Cumprimentam quando passas na rua, quando entras no supermercado, numa loja ou em qualquer outra ocasião. Se viam que estávamos baralhados ou perdidos, ofereciam imediatamente ajuda, sem sequer perguntarmos. Num dinner muito conhecido em Vinita (antes de Tulsa) – Clanton’s Café, o proprietário ofereceu-nos uma moeda de meio dólar de 1996 após dizermos que estávamos a fazer a Route 66 vindos de Portugal (moedas que já saíram de produção há largos anos). Há melhores recordações que estas?

 

 

Após a visita ao Route 66 Visitor Center  em Springfield (locais de informação da Route 66) percebemos que ainda estávamos muito frescos nesta coisa de percorrer a route. Compramos um guia da Lonely Planet, ainda em Portugal, sobre a Route 66 e tínhamos nos guiado até ali pelo guia (que nos mandava maioritariamente pelas auto-estradas e recomendava saídas estratégicas para visitar pontos), achamos que a route não existiria ali, ou estaria em mau estado, mas não é verdade, é possível percorrer a route quase toda (só mesmo no final é que acaba por se dissolver nas periferias de Los Angeles). A senhora que nos atendeu rapidamente nos fez mudar o trajeto e colocou-nos na rota certa, e valeu bem a pena, vimos muito mais pontos que até ali e vivemos muito mais genuinamente a nossa viagem. Em Oklahoma encontramos uma descrição num dos museus da route, de Will Rogers (comediante e escritor muito conhecido na América) e que me deixou a pensar e a sorrir

 

We are here just for a spell and then pass on. So get a few laughs and do the best you can. Live your life so that whenever you lose it, you are ahead.

 

Hoje é sempre o dia certo para sonhar e cumprir os nossos sonhos!

 

Até já,

 

Patrícia